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Rock in Rio Lisboa 2026: foi assim o primeiro fim de semana

Crónica do primeiro fim de semana (20 e 21 de junho)

Dois dias esgotados, cem mil pessoas por dia, dois palcos principais a tocar ao mesmo tempo durante treze horas. Num festival montado assim, ninguém vê tudo, e quem disser que viu pode ter apenas escolhido experienciar em modo 'degustação', vendo apenas um pouco de tudo. O que se segue é o primeiro fim de semana do Rock in Rio Lisboa tal como o vivemos: o que nos ficou, o bom e o menos bom, sem fingir que estivemos em todo o lado ao mesmo tempo.

O sábado, dia do pop

No Palco Mundo, a noite começou com os Calema (17h) e seguiu para Pedro Sampaio (19h), que foi  a maior festa do dia no recinto. O brasileiro chegou com o seu ballet e uma energia que não dava tréguas, tudo dança e saltos, e conseguiu o que poucos conseguem: pôr a dançar até quem jurava não ser fã. Às 21h15 estreava-se Charlie Puth,, e às 23h15 fechou Katy Perry. O concerto dela durou quase duas horas, boa parte preenchidas com conversa entre temas, e teve um detalhe difícil de ignorar: "Firework", a música, passou sem um único foguete.

A surpresa da noite, para nós, esteve noutro palco. No Super Bock, às 20h15, estreou-se em Portugal Bebe Rexha. Chegámos sem a conhecer para além da interpolação de Eiffel 65 e saímos fãs, tal a confiança, sensualidade e uma presença que não se deixa ficar no palco e vem ter com o público.

Pelo meio, o calor. No primeiro dia apertou a sério, e a sombra, essa, faltou. É um ponto a que havemos de voltar com mais calma, mas fica desde já a nota: passar treze horas ali, debaixo daquele sol, não é para todos.

Às 20h, o céu recebeu pela primeira vez o The Flight, cinco aeronaves Yak-52 da equipa luso-espanhola Yakstars a sobrevoar o Tejo com pirotecnia diurna e fumo colorido, a Ponte Vasco da Gama por trás. Impressionante. E, para quem não lida bem com alturas, também um bocado aflitivo.

O domingo, dia do rock

O Palco Mundo abriu às 17h com grandson, que cruza rock alternativo, rap e eletrónica. Apanhámo-los ainda na passagem de som, antes de abrirem as portas, e foi a melhor descoberta do fim de semana inteiro. Seguiram-se The Pretty Reckless (19h) e, às 21h15, os Cypress Hill, que deram o momento que mais nos ficou. Perto do fim o concerto, alguém desmaiou na plateia. A banda parou e recusou-se a continuar até a pessoa ser assistida, e mesmo o público abriu um corredor para os paramédicos passarem. Com o tempo a esgotar-se, os Cypress Hill saíram sem dizer mais nada.

E depois foram os Linkin Park, às 23h15, o nome que meio recinto tinha vindo ver. O regresso da banda a Lisboa, doze anos depois e já com Emily Armstrong na voz , foi dos momentos mais aguardados de todo o fim de semana, a julgar pelo uníssono arrepiante da multidão em temas como In The End.

No Super Bock, os Tara Perdida abriram o dia às 15h, e o vocalista não deixou passar a deixa: brincou que, em trinta e um anos de carreira, nunca tinham tocado às três da tarde. A piada diz muito. Mais logo, às 20h15, os Kaiser Chiefs deram um dos concertos mais divertidos do fim de semana. Ricky Wilson é daqueles vocalistas que conversam com o público sem se perderem em monólogos, e que põem o palco inteiro ao serviço da festa. A meio, abandonou-o por completo para trepar a uma torre de câmara e cantar lá de cima, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Velhos êxitos, energia a rodos, e um público a responder a tudo.

O que correu menos bem

Houve momentos altos que chegue, mas seria desonesto fingir que correu tudo liso. Duas coisas ficaram para conversa mais séria noutra altura, e ficam aqui apontadas.

A primeira são as sobreposições. Quem comprou bilhete para bandas específicas, muitas vezes só conseguiu ver metade. No domingo, por exemplo P.O.D. e Kaiser Chiefs tocaram à mesma hora, e ao fim da noite Hoobastank, Sepultura e Linkin Park sobrepuseram-se quase todos. Sobreposições há em qualquer festival, é certo, mas custa mais aceitá-las quando as tardes abrem para um recinto meio vazio, como a tal abertura das três que rendeu a piada aos Tara Perdida.

A segunda é o regresso a casa. A polícia cortou o trânsito à volta do recinto por segurança, e até aí tudo bem. O problema é tirar cem mil pessoas do mesmo sítio à mesma hora. Saímos à uma e meia da manhã e só chegámos a casa quase às quatro: quarenta minutos de fila para o shuttle, o Oriente meio cortado, o metro a fechar às duas e meia, e depois horas à espera de um carro, até desistirmos e irmos a pé até um local mais longe para conseguir, ao fim de várias tentativas. A motorista que nos levou, com toda a calma, disse que isto é normal, que com concertos e jogos é sempre assim. E é aí que fica a pergunta que vou guardar para mais tarde: a segurança que corta o trânsito a quinze minutos do recinto é a mesma que deixa gente exausta sem forma de chegar a casa.

No fim de contas

Houve alegria? Houve. Houve música, descobertas, um bom tempo passado entre amigos e família? Tudo isso. O primeiro fim de semana do Rock in Rio teve momentos que valem a viagem. Só que teve também pontos básicos por resolver, que poderão melhorar imenso a experiência de lá estar.
O Rock in Rio Lisboa regressa nos dias 27 e 28: o "dia das lendas", com Rod Stewart, Cyndi Lauper e os Xutos & Pontapés, e o dia dedicado ao hip-hop e à música urbana, com 21 Savage e Central Cee.

Fotos por:  @adriviworks

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