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Guia de sobrevivência ao Rock in Rio: os conselhos que ninguém te dá

Sobrevivi ao primeiro fim de semana para tu não teres de aprender à força. Isto não é a lista do costume, a do powerbank e do protetor solar que toda a gente já sabe. São as coisas que só descobres quando já lá estás, com calor a mais, pó nos sapatos e a noite a cair. Vai buscar a caneta e o caderno e toma nota. Eu espero.

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Veste-te para sobreviver, não para o Instagram

Não estreies sapatos. Por duas razões: não estão amaciados e vais sair com os pés em bolhas, e aquilo é terra batida, por isso vão ficar encardidos e empoeirados de qualquer maneira. Estreia-os noutro sítio qualquer, e leva sapatos confortáveis e que não te importes de trazer para casa com aspeto de que caminharam no deserto.

Para a maltinha que quer ser fashion victim de tops de rede: please, don't. E não é pelo look, é que vais sofrer para aplicar protetor solar por baixo, vais ter de reaplicar o tempo todo, e ainda assim acabas o dia com a malha tatuada na pele em forma de queimadura. Se alguém perguntar como sei, eu digo, entre tossidelas, que foi uma amiga que me contou.

Não vale muito a pena esticar o cabelo, nem gastar uma fortuna a recriar o penteado da Allie-Cat de Off-Campus (vale sempre, mas não para durar tão pouco no Rock in Rio). Está calor, vais suar, está um vento dos demónios, há poeira por todo o lado, e depois, com a humidade da noite, acabas com o cabelo em pasta, tipo estátua viva, daquelas pessoas que se pintam e ficam quietas na rua por umas moedas (com todo o respeito pelos referidos artistas, claro). Faz antes um penteado que aguente a batalha: uma trança, um carrapito, o que te tire o cabelo da cara e não dependa de continuar bonito ao fim de treze horas.

E leva qualquer coisa para a noite, porque depois daquele calor todo, à hora a que o sol se vai, arrefece a sério. Não precisas de casaco grande: eu levei um mini cardigan crop de mangas meio de rede que não ocupa espaço nenhum na mochila e soube tão bem de madrugada. Se tiveres a sorte de ganhar uma sweat num brinde, melhor ainda.

O corpo aguenta o que tu preparares

Tampões para os ouvidos, e estes vão agradecer-te. O som é sempre demasiado alto, um concerto destes anda nos 100 a 115 decibéis e o teu ouvido começa a sofrer a partir dos 85. Aos 100, bastam uns 15 minutos para começar o estrago, e tu vais estar lá treze horas, não quinze minutos. A parte boa é que, com os tampões, mesmo que não estejam super bem colocados, consegues ouvir tudo na perfeição, sem incomodar os tímpanos nem ficar com tinnitus no dia seguinte. Os Loop são os mais conhecidos, mas há versões mais baratas que arranjas por 10 euros ou menos. Os meus vieram num kit de artigos de viagem (com almofadinha e máscara de dormir) e foram a melhor coisa que comprei.

Para as minhas thick thigh girlies, e isto serve também para os pés se fizerem bolhas: cera anti-fricção em creme, das que se passam na pele antes de sair. Eu uso da marca Migou e dura imenso tempo, mas com o suor pode ser preciso reaplicar. Se queres usar vestido o dia todo sem calções por baixo a apertar, isto salva-te.

Leva saquetas de eletrólitos para repor. Só água não chega quando estás a suar há horas, e a meio do dia o corpo dá sinais. Reidratar a sério não é só beber, é repor o que perdes.

E o conselho que ninguém te dá e que vais agradecer-me às três da manhã: deixa uma embalagem de aloe vera gel no frigorífico antes de saíres de casa. Por muito protetor que ponhas, há boa probabilidade de voltares tostada, e nada como o frio do gel na pele queimada quando chegas destroçada e só queres cair na cama.

Leva um pano que se desdobre para te sentares no chão, tipo pareo, ou um lenço,. Há marcas que dão brindes destes, até almofadas, mas não contes que ganhas, garante o teu.

Não te deixes assaltar pela fome

Leva os teus snacks. Lá dentro a comida é cara e nem sempre há opção decente, por isso levar o teu poupa-te dinheiro e filas. A minha escolha: as barras de frutos secos do Pingo Doce, que não têm açúcares adicionados (e não, isto não é publicidade). Têm de Pistácio e de Côco/Amêndoa e saciam a sério. Babybel também são bons, mas a cera depois derrete e é mais chata de descascar. O Lidl também tem uns palitos de queijo Mozzarella que são excelentes. Pode-se entrar no recinto com quatro peças de comida por pessoa.

Bem-estar e imprevistos

Se vier o período, a Evax está lá a dar pensos. Mas atenção, às vezes dão à entrada de forma aleatória, outras tens mesmo de ir à booth deles, por isso não dependas de teres sorte à porta.

Há uma Sala Sensorial, e isto é importante para quem precisa. É um espaço calmo, com luz e som reduzidos, pensado para pessoas neurodivergentes ou para quem entra em sobrecarga e precisa de uns minutos longe do barulho e da multidão. Tem terapeutas ocupacionais no local o festival todo, e dizem que bastam 15 a 20 minutos lá dentro para a pessoa se regular e conseguir voltar à festa. Também emprestam kits sensoriais, com abafadores de ruído, óculos escuros e objetos para ajudar a gerir os estímulos. Fica no espaço de acessibilidades, do lado esquerdo logo a seguir à entrada.

Agora a parte que ninguém te diz: o acesso pode exigir registo na Central de Acessibilidade com atestado médico ou Atestado Médico de Incapacidade Multiuso, e todos os dias, não é só uma vez. Ou seja, não é bem um espaço onde qualquer pessoa entra a pedir uns minutos de sossego. Se achas que podes precisar dela, pergunta logo à chegada como funciona o acesso e leva os documentos contigo, se os tiveres. E digo-te com honestidade: no primeiro fim de semana, eu nem sequer dei com ela. Está lá, mas para uma coisa pensada precisamente para quem está em sobrecarga, devia ser bem mais fácil de encontrar.

Estuda bem os brindes

Vê com antecedência quais é que valem mesmo a pena, e vai cedo, antes de esgotarem ou de a fila ficar impossível.

Fica com o guia de brindes da Nicole Concha.

Guia de Brindes do Rock in Rio

A saída: o truque que vale o guia todo

Decide como vais sair antes sequer de entrares. A pior altura para improvisar transporte é à uma e meia da manhã com cem mil pessoas a quererem o mesmo.

E o ouro, aquilo que aprendi à força: não tentes pedir carro no meio do engarrafamento, porque é onde toda a gente está a pedir e os carros não chegam lá. Sai a pé da zona congestionada, anda uns minutos para fora do nó, e pede dali. Quando fomos até aos Olivais, conseguimos carro num instante. Caminhar um pouco poupa-te horas de espera.

E pronto. Diverte-te, hidrata-te, protege-te, e não digas que a Marti não avisou.

Nota:
Em parceria com Writemosphere.
Featured Image de @adriviworks

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