Confesso que Apidya não era propriamente um daqueles nomes que tinha imediatamente na cabeça quando pensava nos grandes clássicos dos shoot ‘em ups. O original foi lançado em 1992 para o Amiga e acabou por conquistar um estatuto quase de culto entre os fãs, principalmente pela sua estética completamente diferente, dificuldade bastante elevada e uma banda sonora que ainda hoje é recordada com bastante carinho.
Mais de 30 anos depois, Apidya regressa com Apidya’ Special, mas não estamos simplesmente perante mais uma versão emulada de um jogo antigo colocada nas consolas atuais. O projeto foi reconstruído pela Team Apidya com participação de membros ligados ao original e recupera ainda ideias e elementos de um antigo port para consolas que nunca chegou a ser lançado. O resultado é uma espécie de remake extremamente fiel, recriado em pixel art e pensado para modernizar a experiência sem destruir aquilo que tornava Apidya tão especial.
E sinceramente, acho que é precisamente esse equilíbrio entre o antigo e o novo que funciona melhor aqui.
Sim, somos uma abelha
A história de Apidya é exatamente o tipo de coisa que esperamos encontrar num videojogo do início dos anos 90. Ikuro vê a sua mulher, Yuri, ser envenenada devido às ações do feiticeiro Hexaae e decide utilizar magia para se transformar numa abelha e partir em busca de uma forma de a salvar.
Sim, transforma-se mesmo numa abelha e depois começa a disparar contra praticamente tudo aquilo que encontra pelo caminho, portanto não precisamos propriamente de pensar demasiado no assunto. A narrativa existe essencialmente para justificar aquilo que acontece durante a aventura e é apresentada através de pequenas sequências com uma forte inspiração anime. Não estamos perante uma história cheia de grandes desenvolvimentos narrativos, mas também não acho que seja isso que alguém procura quando entra num shoot ‘em up como este.
O que interessa realmente começa quando Ikuro levanta voo.

Um shoot ‘em up muito clássico
Apidya’ Special é um shoot ‘em up horizontal bastante tradicional e, mecanicamente, continua muito próximo daquilo que encontrávamos no início dos anos 90. Controlamos a nossa pequena abelha enquanto o cenário avança constantemente e temos de eliminar inimigos, fugir de projéteis e evitar todos os perigos colocados no próprio ambiente.
É um sistema relativamente simples de aprender, mas que rapidamente consegue tornar-se bastante exigente. Temos um ataque básico e um disparo carregado, mas grande parte da progressão durante cada fase passa pelas flores que determinados inimigos deixam cair. Ao recolhê-las, vamos avançando numa barra de upgrades na parte inferior do ecrã e podemos decidir quando queremos utilizar aquilo que acumulámos.
Entre estas melhorias temos aumento de velocidade, diferentes tipos de disparo, bombas, drones que acompanham Ikuro e até um escudo. A lógica faz lembrar imediatamente jogos como Gradius, porque existe constantemente aquela decisão entre utilizar já uma melhoria mais pequena ou continuar a acumular até chegar a algo muito mais poderoso.
Foi uma mecânica de que gostei bastante precisamente porque adiciona uma pequena camada de estratégia a uma gameplay que, de outra forma, seria bastante simples. Podemos melhorar imediatamente a velocidade e tornar Ikuro mais fácil de controlar ou tentar aguentar mais algum tempo até conseguirmos chegar a uma arma muito mais interessante. Naturalmente, quanto mais avançamos, mais importante começa a ser perceber aquilo de que precisamos em cada momento.

É um jogo de 1992 e às vezes nota-se
O Apidya original tinha fama de ser difícil e essa dificuldade continua bastante presente nesta nova versão. Basta um único impacto para perdermos uma vida e existem zonas onde os inimigos entram no ecrã com muito pouco aviso, obstáculos que nos conseguem matar praticamente instantaneamente e bosses onde é necessário aprender muito bem os padrões para não sermos completamente destruídos.
É aquele tipo de dificuldade muito característica dos jogos desta altura, onde morrer fazia simplesmente parte da aprendizagem. Existem momentos que são genuinamente exigentes e outros que conseguem ser um bocadinho maldosos, principalmente quando temos inimigos a aparecer em zonas onde quase não existe tempo para reagir ou determinadas secções onde precisamos basicamente de saber antecipadamente aquilo que vai acontecer.
Felizmente, é precisamente aqui que entra uma das melhores decisões de Apidya’ Special. Em vez de alterarem completamente o jogo para o tornar mais fácil, os developers adicionaram várias opções que nos permitem decidir quão próxima queremos que a experiência seja do original.
Podemos escolher entre diferentes dificuldades e alterar coisas como voltar ou não ao início da fase depois de morrer e perder ou manter os upgrades das armas. Existe inclusivamente a possibilidade de escolher entre a velocidade europeia original de 50 FPS e uma apresentação a 60 FPS, o que significa que quem quer sofrer como se estivesse novamente em 1992 consegue fazê-lo, mas quem apenas quer conhecer Apidya sem atirar o comando pela janela também consegue.
E acho que esta é exatamente a forma correta de modernizar um jogo retro.

Cinco mundos completamente diferentes
Aquilo que mais ajuda Apidya a destacar-se de outros jogos do género é provavelmente a sua temática. Não estamos numa nave espacial a atravessar planetas cheios de aliens, somos uma pequena abelha a percorrer um mundo que, da nossa perspetiva, se torna gigantesco.
Começamos em Meadow, rodeados por plantas, flores e outros insetos, mas rapidamente passamos por Pond, Sewers, Cyber e finalmente Lair. São cinco mundos principais, com vários níveis, bosses e ainda algumas Special Stages escondidas, o que acaba por dar uma variedade bastante interessante à aventura.
As primeiras áreas foram provavelmente aquelas onde senti mais aquilo que torna Apidya diferente. Estamos a lutar contra insetos, peixes, criaturas que aparecem da água e coisas cada vez mais estranhas enquanto atravessamos ambientes naturais cheios de vida. Depois chegamos aos esgotos e as coisas começam a ficar bastante mais… peculiares, com ratos mortos, criaturas a sair de sítios onde preferia que não saíssem e situações completamente absurdas.
É estranho, mas é precisamente essa estranheza que lhe dá tanta personalidade. Quando chegamos às últimas zonas existe uma transição para ambientes mais mecânicos e de ficção científica que continuam visualmente interessantes, mas pessoalmente achei-os um pouco menos memoráveis porque começam a aproximar-se mais daquilo que normalmente esperamos encontrar num shoot ‘em up.
O mundo natural de Apidya é simplesmente muito mais único.

Um remake que percebe aquilo que deve preservar
Visualmente, acho que Apidya’ Special faz um excelente trabalho. A nova pixel art mantém claramente a identidade do jogo de 1992, mas os cenários estão agora muito mais detalhados, temos apresentação widescreen, novos efeitos de parallax e uma quantidade enorme de pequenos elementos em movimento que dão muito mais vida ao mundo.
No entanto, uma das coisas de que mais gostei foi a possibilidade de mudar entre a nova apresentação e a versão original em 4:3. Não estamos apenas a falar de colocar barras pretas ao lado da imagem, existe mesmo um esforço para recriar a experiência original, incluindo gráficos e som, e temos ainda vários filtros CRT para quem quiser tornar tudo ainda mais próximo de jogar num monitor antigo.
É provavelmente uma das melhores coisas que podiam fazer num remake deste género porque permite perceber imediatamente o trabalho que foi feito. Podemos estar a jogar com toda a nova pixel art, mudar para o original e comparar exatamente a mesma zona, o que acaba também por preservar Apidya enquanto jogo histórico em vez de simplesmente substituir aquilo que existia anteriormente.
No geral, a nova apresentação está lindíssima, embora exista um pequeno problema quando tudo começa a ficar demasiado movimentado. Há momentos onde projéteis e alguns inimigos conseguem misturar-se um pouco com os cenários devido à quantidade de detalhe e às cores utilizadas, e num shoot ‘em up onde precisamos de reagir rapidamente a praticamente tudo aquilo que aparece no ecrã, perder durante uma fração de segundo a posição de um projétil não é propriamente ideal.
Não acontece constantemente, mas nota-se.

A banda sonora continua incrível
Se existe uma parte de Apidya que ganhou quase tanta fama como o próprio jogo, é a banda sonora de Chris Hülsbeck. O compositor regressou para Apidya’ Special e temos novas versões de estúdio das músicas originais, além da possibilidade de ouvir as faixas do Amiga.
E sinceramente, está incrível. A música acompanha perfeitamente o ritmo dos níveis e consegue ter aquela sonoridade muito específica dos videojogos daquela época sem parecer simplesmente algo antigo colocado aqui por nostalgia. As novas versões têm naturalmente muito mais profundidade, mas continuam imediatamente reconhecíveis para quem conhece o original.
É também mais uma área onde a possibilidade de alternar entre antigo e novo funciona muito bem, porque conseguimos experimentar ambas as versões e escolher aquela de que gostamos mais. Pessoalmente, acabei por preferir a versão modernizada, mas gosto bastante do facto de terem preservado as duas.
Mais conteúdo do que parece
À primeira vista, Apidya’ Special pode parecer uma experiência bastante curta e, dependendo da dificuldade escolhida e da nossa habilidade com o género, é perfeitamente possível atravessar a campanha relativamente rápido. No entanto, existe bastante coisa pensada para incentivar novas tentativas.
Além dos cinco mundos e dos diferentes bosses, temos Special Stages escondidas e até eventos que podem alterar algumas partes da experiência, incluindo um Night Mode com novos sprites de inimigos. A própria natureza do género também ajuda bastante neste ponto, porque grande parte da longevidade está em aprender os níveis, memorizar padrões, melhorar cada tentativa e eventualmente tentar terminar a campanha com menos mortes ou numa dificuldade superior.
Portanto, se forem jogar apenas uma vez na dificuldade mais baixa para chegar aos créditos, provavelmente vão achar a experiência relativamente pequena. Se entrarem naquela mentalidade de “eu consigo fazer esta fase melhor”, então facilmente conseguem retirar muito mais horas daqui.

E podemos levar outra abelha
Existe também cooperativo local para dois jogadores, uma das adições desta versão. O segundo jogador controla outra abelha e participa realmente no combate, em vez de funcionar apenas como um pequeno assist colocado no ecrã.
É uma adição bastante simples, mas encaixa perfeitamente num jogo deste género. Apidya tem mesmo aquela sensação de jogo que funciona muito bem sentado no sofá com outra pessoa, principalmente porque toda a base da gameplay é extremamente fácil de compreender, disparar, não bater nas coisas e tentar não morrer.
Claro que parece muito simples até o jogo começar a atirar metade do jardim contra nós.

Nem tudo envelheceu da mesma forma
Apidya’ Special faz um excelente trabalho a modernizar o original, mas continua deliberadamente a ser Apidya e isso significa que algumas limitações continuam presentes. A gameplay é bastante simples quando comparada com shoot ‘em ups modernos e quem estiver à procura de um bullet hell extremamente complexo ou de um sistema gigantesco de progressão provavelmente vai encontrar algo demasiado básico.
Alguns encontros também continuam a depender bastante de memorização e existem mortes que podem parecer injustas até percebermos exatamente aquilo que o jogo espera que façamos. Perder upgrades depois de morrer, se mantivermos essa opção ativa, consegue ainda transformar uma tentativa que estava a correr mal numa verdadeira bola de neve.
Também achei que as primeiras áreas conseguem ser bastante mais memoráveis do que as últimas. Quando Apidya está completamente focado naquela ideia estranha de uma abelha armada a atravessar um mundo natural gigantesco, tem uma personalidade incrível. Quando começa a entrar demasiado em ambientes mecânicos e de ficção científica, perde um pouco daquilo que o distinguia.
Ainda assim, quase todos estes problemas vêm diretamente do jogo que Apidya’ Special está a tentar preservar. Não estamos perante um remake que quer reinventar Apidya para os jogadores atuais, mas sim um projeto que quer fazer com que Apidya de 1992 continue divertido tantos anos depois.
E nisso consegue ser bastante bem-sucedido.

Em suma
Apidya’ Special é exatamente o tipo de remake que gosto de ver quando alguém decide recuperar um jogo com mais de 30 anos. Em vez de simplesmente colocar o original dentro de um emulador e chamar-lhe uma nova versão, houve claramente bastante cuidado em perceber aquilo que fazia Apidya especial e modernizar a experiência sem apagar essa identidade.
A nova pixel art está lindíssima, a possibilidade de alternar para a apresentação original é uma excelente adição e todas as opções relacionadas com dificuldade fazem com que um jogo conhecido por ser bastante punitivo consiga finalmente chegar a jogadores que provavelmente nunca teriam paciência para o original. Ao mesmo tempo, quem quer exatamente aquela dificuldade de 1992 continua a encontrá-la aqui.
A gameplay é simples, mas continua extremamente responsiva, e o sistema de upgrades através das flores acrescenta aquela pequena componente estratégica que faz com que não estejamos apenas constantemente a carregar no botão de disparo. Depois temos cinco mundos bastante diferentes, uma quantidade surpreendente de bosses, fases escondidas e cooperativo local para dar alguma longevidade a uma experiência que, naturalmente, continua bastante curta quando comparada com muitos jogos atuais.
Nem tudo envelheceu perfeitamente. Existem momentos um pouco injustos, algumas partes dependem demasiado de memorizarmos aquilo que vai acontecer e a nova apresentação consegue ocasionalmente tornar o ecrã demasiado ocupado para um género onde conseguir ler rapidamente cada projétil é essencial. Ainda assim, acho que isso não retira aquilo que Apidya’ Special consegue fazer melhor.
É estranho, colorido, difícil e completamente assumido naquilo que é, e num mercado onde tantos remakes tentam transformar jogos antigos em qualquer coisa completamente diferente para os tornar modernos, gostei especialmente de ver um projeto que percebe que modernizar não significa necessariamente substituir.
Às vezes basta pegar numa abelha de 1992, dar-lhe uma nova camada de pixels e deixá-la continuar a disparar contra tudo aquilo que aparece à frente.
Apidya' Special (PS5)
Jogabilidade - 80%
Gráficos - 80%
Som/Banda Sonora - 80%
80%
Muito Bom
Apidya' Special é um remake feito com bastante cuidado, que consegue modernizar um clássico de 1992 sem apagar aquilo que o tornou especial. A nova pixel art está lindíssima, a banda sonora continua incrível e as várias opções de dificuldade tornam a experiência muito mais acessível sem retirar o desafio a quem procura algo mais próximo do original. Algumas mecânicas e momentos de dificuldade mostram a idade do jogo, mas no geral estamos perante uma excelente forma de descobrir, ou revisitar, um dos shoot 'em ups mais peculiares da era Amiga.
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