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Metal Gear Solid e a aprendizagem lúdica



A minha sala, há dezanove anos atrás…tive a informação nada confidencial de que existia um jogo que iria mudar o mundo dos videojogos.

Um passatempo sobre Metal Gear Solid é transmitido na televisão, e esta é a primeira vez que vejo a sua jogabilidade…fiquei completamente rendido e entusiasmado. Meses passam, e eventualmente sai novas informações na Revista Oficial PlayStation, onde se pode ler na capa “METAL GEAR SOLID REVELADO: O JOGO DE 1998”, com Solid Snake em grande plano e um fundo branco. Para um adulto, só o título em si pode ser bastante atractivo, mas para uma criança…é como ter um presente de anos, ou de Natal, muito antes do mesmo. Como a antecipação era muita, “devorei” o artigo sobre Metal Gear Solid em pouco tempo, mas a sede de jogar era muita, portanto, voltei a ler e a reler todo o artigo. Foi quando li sobre Hideo Kojima pela primeira vez e os seus trabalhos, que na altura eram muito pouco conhecidos no mercado ocidental quando comparados com outros grandes produtores japoneses.

Uma passagem, da entrevista feita a Hideo Kojima, destaca-se perante todas as outras:

“O que vão fazer depois de MGS?(…) Umas férias, talvez?”

“Tenho muitas ideias e muitos projectos nos quais quero trabalhar. Talvez depois disso.”

Aqui, fiquei logo com aquela sensação de que algo mais estaria para vir, mas naquela altura, apenas importava jogar jogar esta, suposta, obra-prima. Mais anúncios e mais passatempos aparecem na televisão, e revistas, mas nada de novas informações. Mais alguns meses passam, e chega Fevereiro de 1999, onde a Revista Oficial PlayStation tem uma análise de 5 páginas e uma demo jogável. Era realmente um dos melhores presentes que tinha recebido, e ainda nem era o jogo completo. Li a análise dezenas de vezes, apreciando cada imagem e detalhe sobre o mesmo. E isto ainda na escola, sendo que precisava de chegar a casa e jogar a demo. Foram as 5 horas mais inquietantes como criança, o entusiasmo era realmente de outro mundo.

Chego a casa, ponho a demo na PlayStation, nem quis saber dos outros jogos que eram títulos como Devil Dice, Cool Boarders 3, Max Power Racing, V-2000, S.C.A.R.S. e nada menos que 14 jogos completos Yaroze, tais como Blitter Boy, Clone, Haunted Maze e Psychon. Era uma demo cheia de jogos que andavam a ser publicitados há meses, mas para mim só havia um objectivo: jogar Metal Gear Solid.

A primeira coisa que aparece é o símbolo da Konami e o mítico jingle de Policenauts e KCEJapan, o estúdio dedicado a Kojima e ao projecto MGS. Apesar do meu inglês na altura ser muito rudimentar (praticamente não-existente, vá), as palavras “A Hideo Kojima Game” eram bastante proeminentes e muito pouco usuais, pois a minha reacção foi logo: “Ei…isso é aquele senhor da entrevista, o criador de MGS!”. Ainda hoje não é muito usual um jogo ser apresentado como “um jogo de um indivíduo”, mas na altura era ainda menos comum, se não mesmo nunca antes feito.

A demo começa com uma conversa entre o Coronel Campbell e Solid Snake, e com uma banda sonora “à filme”. Outra vez, muito pouco usual no mundo dos videojogos. Na altura, apenas percebia que tínhamos uma missão e que estávamos num submarino. Então, eis que aparece o menu do jogo, com o logótipo do jogo e Snake como imagem de fundo. O menu tinha várias opções, mas apenas duas podiam ser escolhidas, “NEW GAME” e “OPTIONS”. O resto era inacessível. Então, eis que começo com “NEW GAME”…ou pensava eu, porque houve um período de habituação. Sendo MGS um jogo tradicionalmente japonês, o serve para confirmar e o X serve para cancelar, mas era um facto ao qual estava alheio. Outra vez, muito pouco usual no mundo dos videojogos, ou pelo menos achava eu na altura. Mas lá consegui perceber a lógica da coisa. E então, tendo conseguido ultrapassar o primeiro obstáculo, eis que ouço uma melodia simples e calma, sendo travada pela tensão do jogo.

“This is Snake.”

…Estas palavras, ainda hoje me trazem memórias daqueles tempos. Apesar de ainda não perceber muito inglês naquela altura, consegui entender minimamente o que queria aquilo dizer e ficou para mim, como um marco, de como um videojogo poderia ter um tom sério e parecer muito real, algo que até ali nunca outro o tinha feito. Metal Gear Solid tem tutoriais por todo o jogo, mas não são gratuitos; é preciso telefonar a Coronel pelo Codec e depois de algumas conversas, ele eventualmente refere o que devemos fazer e quais os controlos. Portanto, passei meia hora a tentar perceber os controlos do jogo, as suas mecânicas, tais como poder bater na parede, como correr em cima de água faz muito mais barulho do que sem água, agachar, pontapear os guardas, saber como seleccionar armas e itens, entre outros; e o intuito do Codec, uma ferramenta muito precisa e útil para a progressão do jogo.

Lá consigo passar o primeiro nível e existe uma série de explicações sobre como jogar e como detectar inimigos; sobre as personagens e, o que viria mais tarde a saber, como Solid Snake gosta de engatar com piadas secas. O nível seguinte é tão intemporal e genial, que foi alvo de tributo mesmo dentro da série dez anos depois, em MGS4, onde podemos revisitar a antiga base.

Mas voltando à demo, depois de passar todos os níveis possíveis, eis que chego à prisão onde se encontra o DARPA Chief, e a demo acaba. Mas soube a pouco, eu precisava de jogar mais. Esperei durante semanas até que o jogo fosse lançado na minha cidade, com grandes expectativas e ansiedade, totalmente compreensíveis, pois o jogo parecia que seria excelente. Finalmente, chega o dia! Os meus pais compraram o jogo, foram-me buscar à escola, e depois de fazer os trabalhos de casa “às três pancadas”, voltei-me para o jogo, a 100% por cento. Já não me lembro ao certo quanto tempo demorei a passar o jogo, mas sei que levei semanas a jogá-lo, tentando desbloquear tudo. Até consegui ver o Ninja em formato Homem-Aranha.

O jogo deixou-me completamente embasbacado, ultrapassando as minhas expectativas…depois de alguns níveis normais, encontrei um pistoleiro do faroeste (Revolver Ocelot), um tanque com um gigante com cheio tatuagens de corvos (Vulcan Raven), um ninja cibernético “altamente” (Gray Fox), um psíquico com roupas sadomasoquistas (Psycho Mantis), uma loira que gosta de lobos solitários (Sniper Wolf), um helicóptero com mísseis muito lentos (HIND D), outra vez a loira (agora na neve), descobri que matei um boss sem saber (Decoy Octopus), outra vez o gigante (agora numa arca frigorífica gigante, a condizer vá), um robô gigante que emite ruídos muito reminiscentes a um T-Rex (Metal Gear REX), e finalmente um combate mano-a-mano com o irmão gémeo de Solid Snake (Liquid Snake).

Claro que maioria da história, naquela altura, passou-me completamente ao lado, mas com o tempo e ao entrar no 2º ciclo de escolaridade, fui aprendendo Inglês por mim, e consegui perceber algumas partes. Apenas consegui realmente perceber o jogo uns meses antes de ter jogado Metal Gear Solid 2: Sons Of Liberty, pois aí já dominava um pouco o Inglês. Ainda assim, joguei várias vezes o jogo, fui lendo revistas, portuguesas e espanholas, sobre a história do jogo, percebendo as intenções das personagens, os segredos do jogo, etc. Nunca antes nenhum jogo me tinha “tirado o juízo” desta maneira, e foi aí que me apercebi que realmente este jogo não era apenas  um jogo qualquer.

Passa um ano, e o jogo Metal Gear Solid: Special Missions recebe uma demo. O mesmo aconteceu, mas agora foi muito mais fácil, pois não havia propriamente uma história, mas sim 300 missões VR, que tinham sido como missões-tutorial no primeiro jogo, agora eram a parte fulcral de toda a acção. Nada de história, nada de complicações (para mim na altura), apenas um objectivo: passar a missão no mais baixo tempo possível. E o facto de podermos jogar com o Ninja, apesar de serem poucas missões, deu um ar fresco à série, juntamente com o modo Mystery, em que basicamente nos tornávamos numa iteração de Sherlock Holmes. Mas sem o Dr. Watson.

Foi com Metal Gear Solid que descobri que realmente gostava de “brincar ao esconder”; fosse na escola com os amigos, ou em casa com os videojogos. E foi também a partir desta altura que comecei a preocupar-me sobres estes tipos de jogo e procurar títulos em que a mecânica central era esconder (Tenchu e Sheep, Dog, ‘n’ Wolf são dois bons exemplos na PlayStation), e assim cresceu o meu interesse sobre jogos Stealth. Apesar de já não ter os cartões de memória da minha primeira PlayStation, sei bem que foram mais de centenas de horas a jogar Metal Gear Solid e Metal Gear Solid: Special Missions. Foram simplesmente a fundação de não só aumentar a minha adoração de videojogos, como também a capacidade de raciocinar e arranjar uma táctica “em cima do joelho”.

Todos somos marcados por alguma coisa no nosso desenvolvimento pessoal, e Metal Gear Solid marcou-me de uma forma que poucos jogos, filmes ou até livros marcaram, mudando a minha perspectiva em várias coisas, e isso é algo que me traz sempre um sorriso, quando relembro os tempos de infância e como jogar fazia parte da minha aprendizagem e diversão. É verdade que na altura inicial, não percebia qual era a mensagem, só queria saber que podia andar a disparar as minhas armas e lançar granadas, mas com o tempo fui aprendendo a sua mensagem anti-nuclear, anti-guerra e até anti-armas. E o jogo continua a ser divertido hoje em dia, muito pelo facto de ter sido feito com uma história simples, mas eficaz, e uma jogabilidade original e única.

 

Metal Gear Solid e Metal Gear Solid: Special Missions estão disponíveis para a PlayStation®3, PSP™, e para PC.

Filipe Silva
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