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Harry Potter e as Adaptações Insatisfatórias

Tal como quase toda a gente na minha geração, cresci com o Harry Potter. Era a minha coleção de livros favorita em criança, tendo tido um impacto colossal na minha vida como leitora e, mais tarde, como escritora. Dos livros para todo o tipo de ecrãs, Hogwarts abriu as suas diferentes portas para diversas plataformas, deixando espaço para variadas interpretações do mundo de Harry. Deveria ter sido fantástico haver tantas formas de o tornar real. Mas, por que é que, como fã, nunca me senti verdadeiramente satisfeita com nenhuma adaptação?

Foi quando fiz 10 anos (a 14 de dezembro de 1999) que desembrulhei o Harry Potter e a Pedra Filosofal. Ainda que já fosse uma leitora assídua, fui apanhada de surpresa como quão intrigada fiquei com este livro. Nenhuma outra coleção me fizera visualizar, sentir e pertencer a um mundo ficcional da mesma forma que JK Rowling o fez e nunca me esquecerei disso. Lia umas quantas páginas antes de dormir e depois punha o livro na mesa de cabeceira, apagava a luz e fechava os olhos. Porém, havia uma curiosidade a fervilhar dentro de mim. Tudo apontava para o Snape. Ele era definitivamente o responsável pelo desaparecimento da pedra. Eu tinha de saber! Voltava a acender a luz e continuava a ler até me arderem as pálpebras e ser arrebatada pelo cansaço.

Harry Potter foram os livros que mais vezes li, especialmente enquanto esperava que os últimos 3 fossem lançados. Foi aí também que comecei a escrever fanfic. Não gosto de lhe chamar fanfic, mas escrever sobre estar lá era uma forma de ajudar a preencher o vazio que a espera me deixava. Nem eu sabia o que me prendeu tanto tempo àqueles livros. Era amor, coragem e amizade que compunham o sentimento de pertença. Harry Potter pode ter os seus defeitos, mas na altura eu não tinha noção e agora também não me focarei neles.

Li os primeiros 4 livros e esperei anos pelos 5º, 6º e 7º livros. Não havia nada mais frustrante do que a espera entre livros. Talvez houvesse uma coisa, agora que penso nisso. Uma das experiências mais traumáticas da minha geração era fazer 11 anos e não ver sinais daquela maldita carta.

Até foi uma coisa boa a magia se ter ficado apenas pelos livros. Ainda antes de sair 5º livro, Harry Potter e a Pedra Filosofal estreava nos cinemas em 2001. Lembro-me de sair do cinema com uma sensação de aperto no peito, por as personagens não serem nada como eu sempre as imaginara, enquanto que os meus amigos que não tinham lido os livros estavam tão entusiasmados com os filmes, só para mas tarde partilharem da minha frustração quando finalmente devoraram páginas. Só fiquei irritada com os livros porque deixaram de fora partes e personagens que tinham sido importantes para mim, que não cheguei a ver no ecrã. Havia o Peeves, o poltergeist. Ou a Tonks, uma personagem tão rica e que, nos filmes, a única informação profunda que temos dela é que ele não gosta do próprio nome.

Ou mesmo esta cena, para mim, uma das mais hilariantes.

“Ele comeu-o?” perguntou Fred ansioso, estendendo-lhe a mão para o ajudar a pôr de pé.
“Sim,” disse Harry endireitando-se. “O que era aquilo?”
“Rebuçado Língua de Légua,” respondeu Fred divertido – Invenção minha e do George. Andámos o verão todo à procura de alguém para o testar…”

[ROWLING, JK (2000), Harry Potter e o Cálice de Fogo]

A Hermione foi outra deceção. Em miúda, eu também era muitas vezes vista pelos meus colegas como snob e sabichona insuportável, como se ter interesses intelectuais fosse algum tipo de doença contagiosa da qual devêssemos todos fugir.

Com Harry Potter senti-me compreendida ela primeira vez. Identificava-me com a Hermione de tal forma, que me farta de me mascarar dela no Halloween e Carnaval.
Tenho o maior respeito pelo trabalho da Emma Watson, mas nunca conseguirei ver nela a verdadeira Hermione. Não por culpa da prestação da Emma, é só porque houve facetas da Hermione que também foram deixadas de lado. O quão sensível e perspicaz ela era em relação aos sentimentos das outras personagens, melhorando consequentemente as perspetivas e relações do Harry e do Ron; ela tinha preocupações sociais e fundou o a Brigada de Apoio ao Bem-estar dos Elfos (BABE), muito antes de o ativismo de rede social estar na moda.
A Hermione era o patinho feio trabalhador e inteligente que conquistou o seu lugar de topo naquele universo, inspirando milhões de meninas pelo mundo, contra uma sociedade que diminuía precisamente essas características.  Ela deu-nos confiança e força.

Até o arco do Dudley foi desvalorizado. Ele no fim pedia desculpas ao Harry por tudo o que lhe tinha feito (a JK mencionou que eles mantinham uma relação de postais natalícios). E tantos outros momentos que foram esquecidos.

Junto com os filmes chegaram os videojogos. Ao contrário destes novos tempos de crossplay, em que cada jogo sai para quase todas as plataformas disponíveis, na altura o mesmo título tinha uma versão diferente para cada plataforma. O Harry Potter e a Pedra Filosofal foi lançado para PC, PlayStation, Game Boy…e cada versão era única e feita de raiz para essa plataforma. Os mapas e as missões eram diferentes. Basicamente, cada versão tirava partido das características de cada plataforma. Lembro-me também de os jogar e achar que não tinham nada a ver com livros ou com filmes. Mesmo assim, até eram engraçados e pegavam em personagens que não apareciam nos filmes, tal como o Peeves.

Não jogo todos os jogos do Harry Potter que havia, mas lembro-me de gostar bastantes destes (e não necessariamente por ordem):

1. Harry Potter e a Pedra Filosofar (PC)

Um misto de exploração e plataformas, a Pedra Filosofal era envolvente e divertida. Tínhamos de levar o Harry para as aulas, evitar armadilhas, colecionar feijões e cromos. Isto era quase o mesmo para todos os jogos que se seguiram, mas acho que este merece ser mencionado por ser o primeiro.

2. Harry Potter Quidditch Worldcup

Na minha opinião, isto era melhor que o Pro Evolution Soccer ’06. Podíamos jogar com qualquer posição ou equipa. Ser seeker era o mais fácil. Como beater, precisávamos de uma capacidade de foco maior. Era difícil gerir o jogo, com tantas bolas no campo. Honestamente, já não tenho memorias muito vividas deste jogo, mas lembro-me de ser divertido.

3. Harry Potter e a Câmara dos Segredos (PC, Game Cube e GBA)

Também joguei a versão para PC, mas aquele que me conquistou foi a da Game Cube. Havia só um pequeno defeito que eu detesto na maior parte dos jogos: salto automático. A Câmara dos Segredos tinha mundo semiaberto e, assim que se desbloqueasse o Quidditch, podíamos pegar na vassoura e sobre os campos de Hogwarts. Com missões como desgnomizar o quintal do Weasley, resgatar livros da secção restrita, a Câmara do Segredo proporcionava garantidamente horas de diversão.

O castelo era diferente em todos os jogos e também diferente dos livros. Além disso, se tivéssemos a versão de GBA, era possível ligar o Game Boy à Game Cube e desbloquear uma área especial na versão da Game Cube.

4. Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (PC)

Ainda que até fosse divertido, era muito mais limitado em comparação com os títulos anteriores em que se podia explorar Hogwarts livremente. Por outro lado, podíamos jogar também com o Ron e a Hermione, para além do Harry.

Achei também que 80% deste jogo tinha conteúdo “inventado”. Havia até um feitiço que nunca tinha aparecido em lado nenhum antes, livros ou filmes: Depulso.

5. Harry Potter e a Ordem da Fénix (Wii)

Para mim, este foi o título que ofereceu a melhor experiência de jogo. Era tal e qual estar em Hogwarts, além de que o WiiMote podia ser usado como varinha e usar feitiços parecia quase natural (aposto que ficava lindíssimo na Switch!). Tínhamos de ir às aulas, fazer missões e descobrir passagens secretas. Estava lá tudo, incluindo o escritório cor de rosa da Umbrigde, cheio de retratos animados de gatinhos. Havia outras áreas que se podiam visitar em alturas especificas da narrativa, como o Ministério da Magia ou a mansão de Sirius Black.  Para mim, este foi o mais mágico dos jogos, ainda com todas aquelas tangentes aos livros, com algumas coisas, mais uma vez, deixadas de fora.

Streamei Harry Potter e a Ordem da Fénix recentemente e podem ver um pouco do game play aqui (em inglês…):

Houve ainda outros jogos, como Harry Potter Lego Collection, mas como não joguei nenhum desses, não incluí na lista.

Apesar de me interessar pelos jogos e de me ter divertido, também não senti que satisfizessem o meu coração de fã.

Não queria simplesmente jogar como Harry. Queria poder ser outra personagem, eu própria, nesse mesmo universo, ao lado do grupo, explorar a Diagon-Al, e cada um dos jogos que joguei falhou em oferecer essa experiência. Eu queria, no fundo, saber qual era o meu lugar em Harry Potter. Quem seria? De que lado ficaria?

Depois apareceu o Pottermore (agora, Wizardring World). Era um site que consistia em misturar aventura gráfica pelos livros e uma enciclopédia de Harry Potter (sim, ainda uso essa palavra!). O Pottermore era diretamente produzido pela JK Rowling e ainda tinha os testes oficiais do Chapéu Selecionador e do Patronus; também eram um bocado secos.

Fui selecionada para os Slytherin, agitando toda a minha “Gryffindorice” interna, bem como a minha perceção de mim mesma (sim, estou a exagerar, eu sei!). Nunca me tinha visto como um dos maus. Não, se estivesse em Hogwarts ao mesmo tempo que o Harry, era do lado dele que estaria, não do Malfoy. Fiz uma segunda conta, só por curiosidade e fiz outro teste em que dei Ravenclaw. Ravenclaw era ainda pior. Então, aceitei a minha natureza Slytherin e percebi que ser Slytherin não significava ser-se mau. Aceitei a responsabilidade de mostrar às outras casas que os Slytherin eram discriminados por haver meia dúzia de idiotas lá no meio. Todos se esquecem que o Wormtail era Gryffindor! Já me estou a esticar. Até o Pottermore não abriu aquela porta mágica que um fã precisaria.

Agora até vai sair um jogo que finalmente atende às nossas preces, Hogwarts Legacy. É um MMORPG em Hogwarts, mas ainda assim é uns anos antes do Harry Potter.

A coisa mais próxima com a experiência que eu esperava, e que joguei recentemente, foi mesmo Fire Emblem Three Houses. Podemos explorar o mosteiro, muito parecido com Hogwarts e gerir a equipa, enquanto se prepara as batalhas. Ainda que FE3H inclua isto tudo, continua a não ser Hogwarts.

Este universo só foi possível porque alguém se sentou a escrever e isto fez-me querer criar os meus próprios universos. Quando alguém nos dá a chave para um mundo ficcional tão extraordinário, cheio de pessoas verosímeis e lições morais essenciais, é muito mais do que um presente. É um tesouro. Eu também gostava de expandir a perspetiva das pessoas sobre a natureza humana. Partilhar a paixão pela escrita e pela leitura. Por isso é que o Harry Potter foi para mim muito mais do que o rapaz que sobreviveu. Foi também o rapaz que nos ensinou a acreditar em magia, em nós próprios e também nos mostrou o incomparável poder dos livros.

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